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O VELEJAR NO ORIENTE 

 João Sombra

 

Quando navegávamos pelo Oceano Pacífico, que em suas épocas adequadas é o paraíso para o velejador de cruzeiro. Acreditávamos de forma firme e imutável, que nada o superaria, ou mesmo, ao Oceano de Balboa se igualaria. 

Foram quatro anos de Pacífico e a grande maioria destes, no Pacífico Sul, com suas belas ilhas, lendas e festival de beleza. Na parte norte só estivemos na Califórnia onde compramos o GUARDIAN e demandamos as ilhas Hawai, o arquipélago do ALOHA!!! 

Para nós, o oriente estava envolto nas brumas do mistério e das incertezas. O grande Oceano Índico, palco e cenário de terríveis relatos, vinha com uma apresentação nada auspiciosa. 

Dentro deste contexto, somente Bali, a Ilha dos Deuses, estava posicionada de forma atípica, todos se referiam a ela como um local extraordinário, sob todos os pontos de vista. 

Em meados de 2000, após velejarmos pela Grande Barreira de Corais, contornávamos o norte da Austrália, navegando pelo Mar de Arafura, deixávamos à popa o Estreito de Torres e o Golfo de Carpentária, nos despedíamos do inesquecível Pacífico e adentrávamos ao Oceano Índico. 

Como em todo divisor de águas dos grandes oceanos, deve-se adotar uma postura de prudência exacerbada, e não diminuta cautela, esperando a situação favorável de tempo. Sentíamos que realmente o Índico, era um oceano diferente. 

De Darwin, na Austrália, aproávamos para o Timor Oeste, a Indonésia. Era nosso projeto navegarmos pelas ilhas a leste deste país até chegarmos a Bali. 

Assim numa passagem de 7 dias, ou entorno, navegávamos um oceano diferente, o grande e temido Oceano Índico, que colocava o mais belo tapete vermelho, para a passagem do veleiro brasileiro GUARDIAN, e da Família Sombra

Mar liso, ventos brandos, não mais do que 15 nós, noites repletas de estrelas e nenhum dia de chuva. Era inegavelmente o velejar de sonhos de todo o cruzeirista. 

Observávamos os Guias Náuticos da área e ao chegar às ilhas indonésicas, faríamos o mesmo tipo de navegação utilizada na Grande Barreira de Corais, velejar durante o dia e a noite dormirmos em boas ancoragens, em tranqüilas e belas enseadas. 

O mar muito piscoso, sua coloração já um verde esmeralda, porém limpíssimo e decorando todo este ambiente, embarcações totalmente diferentes das que estávamos acostumados a ter no visual, e um povo simpático, risonho e hospitaleiro, a nos dar as boas vindas, principalmente para nós brasileiros. 

Assim, todo aquele mistério que envolvia de brumas o oriente, ia se dissipando e se descortinava, algo fantástico e belo, sobre tudo, na sua arte e cultura, que para nós arquiteto, era uma classe das mais exponenciais a ser estudada e conhecida. 

Fazíamos então as nossas mais tranqüilas navegadas, não só literalmente no mar, mas em toda esta milenar cultura oriental.  

Justo por tal, estivemos cerca de dois anos em Bali, ainda que alguns tanto estranhem, coisa facilmente perceptível para aqueles que tem uma formação acadêmica universitária, e sejam amantes das artes e da antropologia. 

O velejar pelo oriente é notável, se obedecendo suas épocas certas, se encontram correntes e ventos positivos, tudo de forma adequada e sem exageros. Diríamos sem medo de estar faltando com a verdade, que o Oceano Índico é dos oceanos mais camaradas, principalmente para aqueles que velejam em sua região equatorial. 

Cada país é diferente do outro, ainda que se esteja em uma mesma área. Por vezes, em um próprio país se encontram diversas culturas, e modo diferenciados de viver. Como é o caso da Indonésia, cada ilha tem sua peculiaridade, cada ilha tem suas raízes diferentes, o que fatalmente trás dificuldades ao governo central, como no caso dos separatistas da província de Aceh, ao norte da Sumatra e foi o caso de Timor Leste em sua independência. 

Ao navegarmos pelas ilhas Mentawai sentimos e de forma contundente toda esta diferenciação de culturas.  

A Tailândia e a Malásia, com seus litorais leste e oeste, tem situações de velejar para todas as épocas do ano. Quando de novembro a maio, o lado oeste e de junho a outubro o lado leste. 

Navegar pelo Mar de Andaman é como colocamos exemplificando, estar velejando numa baia de Angra dos Reis, só que tendo seu início em Búzios e indo até Santos. Pode-se assim se ter uma idéia das notáveis velejadas empreendidas neste trecho. Neste navegar se encontram duas culturas totalmente distintas, a tailandesa de origem chinesa e a malaia de origem nos sultanatos, e inegavelmente o viver das historias das mil e uma noites. 

Estes países favorecem em muito os velejadores de cruzeiro, pois uma das grandes diferenciações para os países do Pacifico, é que o custo de vida é muito barato. 

Para nós brasileiros que vivemos assustados e andando no fio da navalha, face às variações cambiais em nosso país, o velejar no oriente é o poder respirar com mais tranqüilidade. 

Como sempre afirmamos em nossos escritos, a desvalorização da moeda brasileira em níveis constantes, é o grande elemento limitador para que mais brasileiros da classe média, se lancem ao projeto de fazer a volta ao mundo em seu veleiro. 

Aqui no oriente este efeito é totalmente minimizado, e pode-se até deixar de se “administrar as tentações” com tanta veemência. 

Justo e por tal este local era, até bem pouco tempo, o paraíso do velejadores de cruzeiro dos países ditos do primeiro mundo. Todavia após a invasão do Iraque, pelos EUA, Inglaterra e Austrália, os cruzeiristas e turistas destes países começaram a receber um tratamento a que não estavam acostumados. 

Os brasileiros, como Penta Campeões Mundiais de Futebol, neste contexto também se torna imbatível, todos gostam e tratam bem os brasileiros, o país que não se envolve e nem manda na casa alheia. 

É muito comum e normal, encontrar-se crianças, rapazes e mocas, trajando como roupa da moda, a camisa da seleção “canarinho”. E, nossa bandeira servindo de elemento decorativo em butiques esportivas, ao invés de serem queimadas em praça pública e olhadas com ódio.  

Agora que contamos com a parceria da BANDERART, a fornecedora oficial das bandeiras do Brasil do GUARDIAN, temos tido a oportunidade de ofertamos a bandeira de nosso país, que vai sendo colocada em locais de destaque. Nas Marinas, Iates Clubes, repartições públicas como alfândega e imigração, lá se encontram as nossas pequenas bandeiras de mesa, com a inscrição: 

“O GUARDIAN esteve aqui!!!” 

Tal oferta terá a função de favorecer aos outros veleiros brasileiros que farão no futuro seu cruzeiro por estes locais. Ou seja, vamos deixando abertas as portas para os próximos que no oriente chegarem. 

Esta sistemática sendo exercida por todos os velejadores de cruzeiro brasileiros, será um grande promocional para nosso país ao tempo em que também favorecera sempre aos cruzeiristas brasileiros. 

Estamos agora neste mês de outubro, iniciando o oitavo ano de nossa viagem, possivelmente ainda tendo outros tantos pela frente. Entretanto, temos a absoluta certeza, que nada mais encontraremos semelhante a esta parte do oriente que velejamos, que estará para sempre marcada de forma inesquecível em nossas memórias. 

Os tempos fantásticos que neste extraordinário oriente vivemos, com cada país distintamente, nos ofertando sua atenção amizade e simpatia, e o grande Oceano Índico, coroando de tranqüilidade todo este nosso navegar será sempre lembrado por cada membro da tripulação do GUARDIAN como algo notável.

Outubro 2003